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Bienal de Luanda quer mostrar potencial da água para "aproximar" povos em África

Reportagem · 23 de set. de 2026 · 9:41

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A água é vida, mas é também a origem de muitos conflitos entre diferentes povos ao longo da História. A Bienal de Luanda, que decorre este ano nos dias 22 e 23 de Outubro na capital angolana, quer mostrar as potencialidades da água para aproximar os povos e não para os afastar, tornando-a uma fonte de prevenção de conflitos, como explicou à RFI Ana Elisa Santana Afonso, que lidera este encontro de alto nível apoiado pela UNESCO.

 

A 4ª edição da Bienal de Luanda, Fórum Pan-Africano para uma Cultura de Paz e Não Violência, decorre na capital angolana nos dias 22 e 23 de Outubro e, desta vez, a temática central é a água. A água é fonte de vida, mas é também uma razão cada vez mais frequente de conflitos um pouco por todo o Mundo, já que, devido às alterações climáticas, se está a tornar num bem escasso e cada vez mais precioso.

A temática deste encontro entre políticos, associações da sociedade civil e jovens, com o apoio da UNESCO, alinha-se também com a agenda da União Africana, que declarou 2026 como o ano de assegurar o acesso sustentável à água. Ana Elisa Santana Afonso é a coordenadora internacional da Bienal de Luanda, tendo uma longa carreira na UNESCO. Como funcionária desta organização, passou pela Etiópia, Camarões e ainda pela República do Congo. A partir da sua experiência e do seu investimento na educação, Ana Elisa Santana Afonso observa a paz como uma construção colectiva.

"A declaração de Yamoussoukro diz qualquer coisa que é muito importante, que é que a paz é o nosso bem mais precioso. É o respeito pela vida, e a paz é um comportamento. Eu acho que é nesta questão de que a paz é um comportamento que a UNESCO tem todo o seu lugar. Portanto, este comportamento molda-se, aprende-se, exercita-se no dia-a-dia. Eu tenho esta tendência de olhar muito para a sala de aulas, de olhar muito para o espaço de alfabetização e de educação. A cidade que aprende todos os dias. Portanto, este envolvimento de todos os actores sociais nesta transformação da mentalidade. E, uma vez mais, refiro-me ao acto constitutivo da UNESCO, que diz que é na mente dos homens que nasce a violência, a guerra. E é trabalhando nessa mente dos homens que se podem encontrar as raízes dessa paz, de uma paz consigo próprio, de paz dentro da comunidade. Paz com a natureza", detalhou a líder da Bienal de Luanda.

A Bienal de Luanda vai este ano abordar o tema da água na perspectiva de "fortificar a boa governação da água como uma ferramenta para fortificar a prevenção, mediação e resolução de conflitos". Segundo a Organização Mundial de Saúde e a UNICEF, uma em cada quatro pessoas no Mundo não tem acesso a água potável; com a escassez de água a aumentar devido às alterações climáticas, é provável que estes números aumentem.

Esta escassez é já motor de muitos conflitos em África e no Mundo, já que a água se está a tornar numa matéria preciosa, como se pode ver nos conflitos entre o Egipto e a Etiópia em relação ao Nilo, mas também nas tensões na Nigéria pelo acesso a terras férteis. Por outro lado, o excesso de água, como as grandes cheias cada vez mais frequentes em países como Moçambique, leva ao deslocamento das populações e aumenta a propensão para doenças contagiosas e infecciosas.

Assim, se a água é fonte de conflitos, deve também ser fonte da resolução dos mesmos, reforçou Ana Elisa Santana Afonso.

"A água tem esta propensão de poder gerar conflitos. Mas foi através da água, através dos rios, que houve a circulação, a circulação de povos, a circulação de mercadorias, a circulação de ideias. A circulação de culturas. Foi através da água que se aprendeu. Também a água contribuiu para a interculturalidade. Portanto, pode-se olhar para a água como um potencial de gerar conflitos, mas pode-se olhar para a água também como um potencial meio de aproximar os homens e as mulheres. E tudo depende da forma como olhamos. Da forma como trabalhamos ao nível da educação, ao nível da comunicação, de forma a prevenir, mais do que resolver os conflitos. O que queremos é preveni-los", explicou a antiga funcionária da UNESCO.

Do encontro em Angola devem sair linhas claras sobre a gestão da água em África, mas também maior cooperação com investigadores, passando ainda por um apoio reforçado da UNESCO.

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