Reportagem · 10 de set. de 2026 · 29:52
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Cinquenta anos após a independência de Cabo Verde e das restantes ex-colónias portuguesas, o escritor, músico, cantor e ex-ministro da Cultura do arquipélago, Mário Lúcio, lançou duas obras que constituem testemunhos marcantes : O livro Afrocalipse e o disco Independance.
Afrocalispse é o romance onde Mário Lúcio se inspira em figuras e regimes autoritários reais do continente africano e constrói uma sátira política destemida.
Com ironia e algum humor, no espaço de um país africano fictício, Mário Lúcio explora os absurdos, a cleptocracia e a insanidade do poder ditatorial na África pós-colonial. O autor responsabiliza abertamente os próprios líderes e sociedades do continente africano pelo desgoverno grosseiro, pelas desgraças sociais e pela ruina dos Direitos Humanos.
No mais recente registo musical de Mário Lúcio é onde se celebra a independência, o grande momento de transformação na África lusófona.
Em Independance, o artista defensor da crioulização gera um ambiente festivo composto por universos sonoros que relembram o período de conquista da independência. Enuncia danças e ritmos até então proibidos pelo colono e a abertura do país à música de Angola, Guiné, Nigéria, Congo, Senegal e Gana
Para gravar e dar a ouvir o disco Independance ao vivo, Mário Lúcio criou a The Pan African Band, formada por Jery Bidan, da Guiné-Bissau, na guitarra; Ricardo Campos, de Angola, no baixo; e Dilson Groove, do Congo, na bateria.
Mário Lúcio passou por Portugal com a The Pan African Band para ser cabeça de cartaz no Festival MED, em Loulé,no Algarve, e conquistou o público de forma arrebatadora.
Antes de subir ao palco principal do Festival MED, a RFI esteve no camarim de Mário Lúcio para uma entrevista. Uma conversa onde, entre outros temas, nos fala do livro Afrocalipse, do papel do escritor, da internet, da necessidade de um pensamento crítico, do machismo destruidor e da esperança na mulher, da Inteligência Artificial, da arte no futebol, da prestação de Cabo Verde no Mundial de Futebol e, é claro, do disco Independance.
Mário Lúcio: No ano passado, gravámos um disco em celebração aos 50 anos da independência de Cabo Verde. Esse disco se chama Independance porque a nossa memória da independência, eu era criança, foi marcada pela chegada das músicas do continente. Música da Nigéria, do Senegal, Guiné-Conakry, Congo, por aí. E foi uma surpresa. Dançámos muito e incorporámos essas músicas na nossa música e hoje a nossa música tem todas essas músicas. Esse disco vai recuperar essas memórias, essas sonoridades. E são os mesmos músicos que gravaram, que também tocam comigo em palco. A The Pan-African Band, o Jerry, da Guiné-Bissau, o Ricardo, de Angola, e o Dilson, do Congo.
RFI: O albúm Independance foi lançado em 2025. Como é que tem estado a ser recebido pelos palcos por onde passou até agora?
Foi o disco da celebração em Cabo Verde, a música Independance. Foi tomada como a música da celebração e o clipe é muito bonito. O clipe foi também um pouco o lembrar, o reconstituir aqueles dias. Na Europa, pelos palcos onde tenho passado, foi uma surpresa, porque conheceram-me mais acústico, mais como trovador e agora venho com a dança do continente. Então, tem sido uma grande surpresa as pessoas poderem dizer: bom, já desfrutámos muito em casa, mas agora estamos a desfrutar de ti nos bailes. É outro ambiente. Eu também gosto, porque eu toquei muito nos bailes, foi como eu comecei aos 15 anos. E agora, digamos que é um ambiente onde eu me sinto muito à vontade. Até apoiado por uma banda, eu me sinto um pouco mais liberto do que quando é o acústico, que é muito mais sensível.
Se eu me lembro bem, houve uma entrevista onde o Mário Lúcio fazia referência precisamente a esses bailes que começariam às oito da noite e iam até às cinco, seis da madrugada.
Como é que era, nessa altura, aguentar tudo isso e como é que é agora com este Independance?
Eu. quando vou ensaiar, ensaio sempre de pé, para ter essa energia e sentir o tempo. Mas eu me habituei. Com 15 anos, comecei com viola ritmo. Era uma guitarra elétrica Gibson, que devia pesar os seus oito ou dez quilos. E depois fui baixista. O baixo era o instrumento mais pesado.
Nós começávamos a tocar nos bailes às oito da noite, que já era relativamente tarde. Naquela época, íamos tocar em lugares que não tinham eletricidade e tinham que ser com motores. E nós carregávamos os nossos próprios instrumentos em caminhões.
Eram colunas e amplificadores Peavey muito pesados. Então, tocávamos até às onze e fazíamos um intervalo, três horas seguidas. E depois o intervalo era no máximo de 15 minutos, senão o baile acabava.
Tocávamos dessa hora, mais ou menos, até as duas e meia, três da manhã. E depois fazíamos das três às cinco. Às vezes fazíamos quatro intervalos, duas em duas horas, uma coisa assim.
E tínhamos repertório com 80 músicas ou mais, porque devíamos tocar as músicas que estavam da moda, mas também ficar atento a cada lugar, cada público gostava de um género de música ( de uma música). E, às vezes, tínhamos que repetir essa música três ou quatro vezes na noite. Era uma festa.
Então, hoje, tocar uma hora, uma hora e quinze, para mim... . O cansaço é mais espiritual, no sentido de toda a concentração, tudo o que se dá, tudo o que se recebe. E depois precisamos de descer ao chão. Então, é um êxtase, como se estivéssemos a fazer uma maratona de 60 ou 80 quilómetros.
Mas, de resto, o cansaço físico não sinto, porque a guitarra é mais leve. Eu já estou habituado a essas andanças também.
Mário Lúcio, o disco Independance, como o referiu, é uma celebração dos 50 anos de independência. Numa outra faceta, num outro manifestar artístico do Mário Lúcio, a escrita. foi editado recentemente o livro Afrocalipse. Um livro que aponta num sentido contrário, ou pelo menos suger