Vida em França · 19 de ago. de 2026 · 14:57
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A França tem vivido um verão inédito, com uma sucessão de cinco ondas de calor que se traduziram por 52 dias com temperaturas próximas ou acima dos 40 graus em praticamente todo o território. Segundo a agência nacional 'Météo-France', 2026 é desde já considerado -de longe- o ano com mais dias de altas temperaturas desde 1947, altura em que se começou a recolher esses dados.
Isto traduz-se por uma estiagem generalizada com consequências nomeadamente para a agricultura. Há dias, o governo francês disse que iria anunciar em Setembro um plano de ajuda para os agricultores que foram colocados sob pressão nestas últimas semanas e cujos rendimentos estão a ser afectados.
Num âmbito mais geral, o acesso à água potável é mais raro, com o caudal dos rios a baixar. Esta semana, 93 distritos foram submetidos a restrições na utilização da água, sendo que na semana passada, 40 mil pessoas chegaram inclusivamente a conhecer cortes no seu fornecimento.
Uma situação perante a qual se torna mais premente a questão do abastecimento em água nas próximas semanas, com todas as consequências que isto acarreta, tanto no sector da agricultura, como no sector dos transportes, da energia ou ainda em termos ambientais. Questões que abordamos com Richard Tavares, consultor de projectos na Agência Europeia de Investigação (REA).
RFI: Qual é a principal consequência destas sucessivas ondas de calor aqui em França?
Richard Tavares: A consequência principal é sobretudo a retenção da água a nível dos aquíferos e dos dos cursos de água a nível superficial. A ocorrência das diferentes ondas de calor desde Maio afectam sobretudo a retenção da água, que normalmente em período primaveril, era mais acumulada, quer ao nível da superfície, mas também ao nível subterrâneo, nos solos. E estas ondas de calor excepcionais têm provocado sobretudo a evaporação da água a nível do solo. O período da Primavera já é um período, por exemplo, a nível agrícola, em que a actividade é bastante intensa. A remoção das camadas superficiais do solo aumenta ainda a evaporação da água, mas também a nível da vegetação, através da evapotranspiração que recebe um esforço ou um incentivo ainda maior. Ajuda ainda mais a libertar esta água que normalmente é retida. E depois há menos quantidade de água.
RFI: E, portanto. Isto tem consequências a vários níveis. O nível mais óbvio é, designadamente a agricultura. É previsível que haja falta de alimento daqui uns tempos, por conta de más colheitas?
Richard Tavares: Exactamente, é uma consequência directa destas ondas de calor. Actualmente, por exemplo, já se vê na produção quer dos cereais, quer de fruta e legumes, quer em França, quer noutros países europeus, por exemplo, os países vizinhos, a Bélgica, Itália e Espanha. Tanto a quantidade como o tamanho, por exemplo, da fruta e dos legumes têm reduzido visivelmente. O que tem logo um impacto tanto no consumidor, como no produtor, porque há menos quantidade de produto e o preço vai aumentar. Já existem alguns produtos em que tem havido aumentos, mas nos próximos meses será ainda maior o impacto, quer para o consumidor quer para o produtor, porque viu parte da sua produção reduzir significativamente.
RFI: Isto poderá ter também o efeito de encorajar ainda mais os agricultores a usarem químicos na produção agrícola?
Richard Tavares: Eu pessoalmente, não diria que existe esse efeito directo do aumento de químicos, porque a própria produção é afectada por falta de água. A introdução de determinados químicos iria afectar a qualidade, por exemplo, do cereal ou das plantas. A produção de químicos poderia ajudar, mas tinha que ser compensada também por um aumento da rega, o que não acredito que a nível de agricultores poderiam ter este aumento, porque a quantidade de água tem reduzido significativamente.
RFI: Isto também, como disse, tem efeito sobre a produção de cereais, o que significa que isto também recai sobre o gado.
Richard Tavares: Através de dados que recolhi recentemente através do Ministério da Agricultura francês, a quebra dos rendimentos a nível do sector agrícola e alimentar tem sido de 20 a 40%. Já em culturas actuais, quer do milho, girassol, horticultura, o que tem, além do impacto na própria produção industrial, o alimento, por exemplo, para o gado ou para a pecuária. Mas claro que depois a pecuária também será directamente afectada.
RFI: Outra das consequências da falta de água tem a ver com o sector do transporte de mercadorias por via fluvial. Como é que estamos nesse aspecto?
Richard Tavares: Começa a ser crítico, por exemplo, a nível dos cursos de água normais. O ofício francês da biodiversidade verificou que, a nível, por exemplo, do fluxo de água de rios, cerca de 43% das estações da rede de monitorização detectaram cursos de água já praticamente com seca total. Se isto já acontece nos pequenos rios, nos grandes cursos de água, por exemplo, o Reno, já estão a ser afectados. A nível de França já existe um impacto no transporte de material e de, por exemplo, a mesma a nível de cereais, um impacto directo não apenas para a distribuição, mas também para o contexto de serviços e de produtos que serão vendidos depois, mais tarde, em França. Não sei quais são os valores exactos, mas no transporte internacional, França, Alemanha e os países vizinhos, já existe uma redução drástica, incluindo, por exemplo, a Bélgica. O que implica para as empresas de transportes terem de ver rotas alternativas. A grande maioria é sobretudo o transporte através de camiões, o que tem logo um impacto não apenas económico, mas também na emissão de gases com efeito de estufa.
RFI: O facto de baixar