Podlileitor de podcasts Webplayer

Reportagem

Reportagem

"O Arquivo" de Grada Kilomba dá lugar à "reflexão" e ao "vazio" deixado pelo genocídio no Ruanda

Reportagem · 7 de jun. de 2026 · 16:03

0:0016:03

Ouça na app Podli 🎧

Siga os seus podcasts favoritos, ouça offline e no carro com CarPlay e Android Auto, e continue sempre onde ficou. Experimente grátis.

A artista portuguesa Grada Kilomba é a autora do memorial de homenagem às vítimas e sobreviventes do genocídio de 1994 no Ruanda que foi inaugurado esta semana em Paris.

Dois muros negros, triangulos no chão que representam as mil colinas do Ruanda e as palavras "lembrar, crescer, juntos" instalados nas margens do Sena, em Paris, relembram desde o início de Junho de 2026 o genocídio dos tutsis em 1994. Uma cerimónia oficial reuniu o Presidente francês, Emmanuel Macron, e o Presidente ruandês, Paul Kagame, para a inaguração deste memorial criado pela artista portuguesa Grada Kilomba e que é mais um passo para o reconhecimento público do papel da França nos massacres, num altura em que Paris mantinha relações privilegiadas com o regime hutu.

Grada Kilomba foi convidada a concorrer com outros quatro artistas internacionais para a concepção deste projecto e foi o seu monumento, minimalista e tocante, que se impôs. Para esta artista portuguesa, foram três anos de criação em que foi necessário representar o inimaginável, sem reproduzir a violência. Grada Kilomba criou assim "O Arquivo" para lembrar as vítimas e as suas famílias, constatar o vazio da inacção internacional face a um crime abominável e mostrar que só é possível preencher o espaço deixado pela dor através da nossa humanidade.

"Representar o desumano sem reproduzir o desumano. Isso foi mesmo um processo constante durante o fazer da obra. As minhas obras geralmente lidam de facto com o incompreensível. O meu trabalho é muito focado em tentar compreender o que é a violência, o que é violência cíclica e o que é o conceito de repetição e como a violência histórica se repete. Portanto, isso já é um trabalho que eu tenho feito em outras obras e que me interessa muito. Depois, usar uma linguagem poética para não reproduzir a violência. Então a poesia, eu acho que é a beleza, são dois aspectos muito importantes para mim. Quando eu estou a fazer uma obra, apesar de lidar com temas extremamente violentos e com a morte também porque nós estamos a falar de um de um genocídio onde 1 milhão de pessoas que foram mortas durante 100 dias, interessa-me muito desenvolver obras em que, acima de tudo, são poéticas e humanas, onde as pessoas e o público entra para reflectir sobre a condição humana", descreveu Grada Kilomba.

A artista portuguesa, com origens angolanas e são-tomenses, que tem vindo a tratar nas últimas duas décadas de temas ligados à violência racial e escravatura, utilizou neste monumento em Paris o seu estilo que é descrito como "minimalista pós-colonial" para representar o sofrimento dos tutsis e a inacção da comunidade internacional.

Grada Kilomba é psicóloga e partiu no final dos anos 90 para Berlim onde realizou o seu doutoramento que deu origem ao livro "Memórias da Plantação", que tem sido editado em vários países. Desde aí, a artista tem multiplicado os seus meios de expressão quer seja através das artes plásticas, como a obra "O barco", ou através da dança, coreografando instalações.

Numa altura em que em muitos países europeus e africanos - após um forte movimento nos Estados Unidos - se começa a questionar a toponomía das ruas e as estátuas que ocupam o espaço público, a artista defende que o espaço público é "extremamente poderoso" e é através desses espaço que as sociedades decidem quem deve ser homenageado.

"Eu acho que é muito importante nós compreendermos o que é que o espaço público significa e o que é que significa arte no espaço público. Nós temos que compreender que o espaço público é extremamente poderoso. Talvez seja o lugar mais poderoso para uma artista mostrar uma obra, mais do que um museu, porque o espaço público está em constante diálogo com o público. E quando nós caminhamos numa cidade como Paris ou Lisboa ou Kigali e estamos rodeados de monumentos, de arquitectura, de arte pública, nós não estamos só rodeados de objetos arquitetónicos e artísticos. É importante compreender que nós estamos, acima de tudo, rodeados de formas de contar histórias. Então, a arte pública não é só arte, mas é uma forma de contar histórias. É uma forma de dizer o que é que nós devemos saber e o que é que nós não devemos saber, de quem é que nos devemos lembrar e de quem é que não nos devemos lembrar, quem é que nós celebramos, que nomes é que conhecemos, quem é que nós chorámos, a quem é que damos e devolvemos flores", defendeu a artista.

O monumento de Grada Kilomba insere-se num "caminho de verdade" sobre o papel da França no genocídio no Ruanda, com o Presidente Emmanuel Macron a ter dito durante as cerimónias que se tratava de um marco em direcção ao futuro e com o seu homólogo ruandês, Paul Kagame, a reconhecer "a coragem" desta admissão de culpa. Após um período complicado na relação dos dois países, "O Arquivo" marca a reaproximação entre os dois Estados.

Episódios: Reportagem

PodliDescarrega a app gratuita do Podli
↓ App