Reportagem · 4 de jun. de 2026 · 9:11
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Moçambique recebeu nesta 4ª feira, 03 de Junho, perto de 600 cidadãos que fugiram da violência xenófoba na vizinha republica da África do Sul. A fronteira de Ressano Garcia, na província de Maputo, foi a porta de entrada dos cidadãos que relatam violência física, queima de residências, mortes e outros crimes de que foram alvo por parte dos cidadãos sul-africanos.
O grito é de socorro… e vem de todos os lados da África do Sul
São cidadãos moçambicanos que temem pela sua vida, são cidadãos moçambicanos que fizeram da terra do Rand a sua pátria. Muitos residem neste país vizinho há décadas, outros nasceram nesse território e que hoje vêem-se confrontados com os movimentos anti-imigrantes que fixam atá ao dia 30 deste mês de Junho para abandonarem o país. Esta não é uma exigência feita só aos indocumentados diz Silva Valoi, que, apenas de mochila as costas regressou a Moçambique, como parte do primeiro grupo de moçambicanos repatriados numa acção coordenada pelo Governo.
“Disseram que eram contra pessoas que não têm papéis, mas eu tenho. O meu passaporte que está aqui comigo é válido, mas eles não queriam isso aí, estavam a destruir", descreveu, falando do que viu. “Incêndios de casas, mortes e muito muitas coisas aconteceram lá. Mataram pessoas, queimaram casas e roubaram as nossas coisas, e nós fugimos porque se não fugíssemos iam matar-nos”.
A incerteza toma conta a cada dia e entre encarar a vida ou até morte prometida pelos movimentos anti-imigrantes, como March on March, muitos são os moçambicanos que começam a deixar o país e, chegam à pátria amada com as mãos cheias de nada.
"Coisa que aconteceu lá é muito triste porque lá dizem que não querem mais estrangeiros porque nós levamos emprego deles, essas coisas assim já quando te encontram enquanto és estrangeiro matam-te, queimam casas, roubam coisas assim estamos a regressar sem nada, nem documento, nem nada”, disse outra pessoa que voltou da África do Sul.
E é por Ressano Garcia, o maior posto de fronteira terrestre que separa Moçambique e a África do Sul, que chegam centenas de moçambicanos num movimento cada vez mais intenso.
As autoridades governamentais moçambicanas, garantem que estão criadas todas as condições para receber os seus concidadãos diz Gabriel Monteiro, vice- presidente do Instituto Nacional de Gestão de Risco de Desastres INGD.
“O nosso consulado, a embaixada faz também a triagem lá e o que nós recebemos são compatriotas já, digamos, reencaminhados, vêm acompanhados pelos nossos colegas da África do Sul e quando chegam aqui a nossa obrigação é fazer de tudo para que o processo decorra com maior flexibilidade para mitigar o sofrimento. Há uma logística preparada para a sua viagem então receberão também um kit para as suas casas. Tudo isso é feito pelo Governo para mitigar este sofrimento que eles passaram ou vao passando neste processo todo”, explicou Gabriel Monteiro.
O administrador do distrito da Moamba, Carlos Mussanhane lamenta que esta situação de xenofobia esteja mais uma vez a acontecer na África do Sul e já com o registo de várias mortes entre a comunidade moçambicana.
“Devemos, como continente, como mundo, termos uma abordagem mais ampla e mais integrada sob o ponto de vista como é que nós estruturamos as nossas sociedades para sermos sociedades de mãos abertas para podermos ter a capacidade de nos ampararmos”, indicou Carlos Mussanhane.
E os transportadores de passageiros que ligam Mocambique a vários destinos da África do Sul ja sentem na pele o tratamento diferenciado nos postos de fronteira, diz o presidente da associação moçambicana - África do Sul transporte associados, Frederico Lopes.
"Do lado de Mocambique é excelente, não há duvida nenhuma. Pode chegar aí um autocarro, dois ou três autocarros haver uma filazita aí de 50 ou 100 ou mesmo 150 pessoas em menos de 30 minutos as pessoas estão despachadas. Do outro lado é sinal de que não nos querem do outro lado. A pessoa chega a ficar na fila duas ou três horas e há momentos quando vê que a fila é grande, aí ficam envergonhados, até chamam, mandam alguém dizer, quem tem passaporte sul-africano para se retirar da fila para poderem carimbar. Isso é quase todos os dias. Quando é fim de semana, a situação é pior”, indicou o líder dos transportes.
O politico moçambicano Augusto Pelembe culpa o Governo moçambicano por tudo o que está a acontecer.
“O maior problema é nosso como Moçambique. O que é que estamos a fazer desde a independência para que os jovens tenham emprego para que as pessoas não queiram ir para a África do Sul sofrer porque aquilo é um sofrimento. Se Mocambique tivesse abertura para que os jovens tivessem emprego nenhum moçambicano ia preferir ir para África do Sul sofrer. Agora, cabe a quem está a governar criar politicas acertadas para que Moçambique volte a ter uma indústria que possa absorver a maioria dos moçambicanos para terem oportunidade de emprego”, detalhou o político.
A violência xenófoba atinge crianças, mulheres, idosos que regressaram ao país na 4ª feira, 03 de maio, num primeiro repatriamento programado pelo governo moçambicano. Cerca de 600 pessoas de acordo com a porta voz do INGD, Nelma de Araujo.
"Na sua maioria são da província de Gaza, com um total de 337 pessoas de Gaza, oito de Manica, 107 da província de Maputo e 17 da cidade de Maputo. Como INGD nós estivemos a trabalhar e a coordenar a atividade, o INGD não esteve sozinho, esteve também com o INACE , com a migração, com a saúde. Nós recebemos os repatriados, depois de se apresentarem aos serviços de migração fizemos o registo, tirando os seus dados, o contacto e que actividades estavam a desempenhar na vizinha África do Sul”, det