Reportagem · 8 de mai. de 2026 · 14:45
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A exposição "Africa Fashion" presente no museu do Quai Branly não se limita a mostrar roupa: percorre histórias, rupturas e continuidades do continente africano. Entre tecidos ancestrais e criações contemporâneas, a exposição revela a moda como linguagem de identidade e resistência. Para o artista guineense Nu Barreto, criar é um gesto de liberdade onde memória, política e futuro se entrelaçam.
No museu do Quai Branly, "Africa Fashion" organiza-se como uma travessia. Não se entra para ver apenas roupa: entra-se para percorrer um continente em movimento. Tecidos que são manifestos, cortes que são tomadas de posição, silhuetas que se tornam gestos de soberania. A moda, aqui, não veste apenas corpos, veste também o tempo.
Percorremos a exposição com o artista guineense, Nu Barreto, que avança devagar, com a atenção de quem não quer perder nada. Lê, observa, volta atrás. Há um gesto de reconhecimento em cada sala, como se aquela matéria fosse também memória.
“Eu continuo a pensar que criar é constantemente motivar, criar é constantemente puxar o limite além”, diz, quase como para resumir o que acaba de ver. Insiste no facto de que criar não é um acto isolado nem ornamental é “ultrapassar momentos, solicitar ânsias, puxar pessoas, dinamizar as pessoas”. Nas suas palavras há uma ideia de criação como movimento, como força que empurra.
E talvez seja isso que se sente ao longo da exposição: uma recusa da imobilidade. O que se acumula, fotografias, vídeos, peças, textos não é apenas produção estética. É energia. Nu Barreto fala disso como uma necessidade: “aniquilar a monotonia”. Como se criar fosse, antes de mais, recusar a estagnação.
Não há, por isso, um passado estático. Há um presente que se prolonga. O próprio título da exposição, Africa Fashion, pode sugerir uma categoria, um rótulo, algo que se fixa. Mas Nu Barreto desvia-se dessa leitura. “É tornar algo perene, tornar algo definitivo”, diz. Não no sentido de fechar, mas de afirmar continuidade. “Houve, há e haverá.”
A moda surge aqui como espelho, “uma espécie de espelho onde todos podemos constatar” essa linha que não se interrompe e, ao mesmo tempo, como actualização permanente. “Estamos actualizados, sempre estivemos actualizados.” A frase desmonta uma narrativa antiga: a de que África chega tarde à modernidade. Aqui, a modernidade não chega porque sempre esteve.
Essa continuidade atravessa inevitavelmente o momento das independências. A exposição põe em destaque o ano de 1960, o chamado ano de África, quando 17 países se libertam do domínio colonial. A moda acompanha esse tempo como afirmação de identidade, como construção de um orgulho visual.
Mas Nu Barreto recusa a ideia de ruptura total porque “embora parecesse parado no tempo, nunca parou”, diz. O essencial, para ele, está noutro plano: “enquanto a política tem o dia-a-dia das pessoas, a cultura, a arte está a trabalhar a mente das pessoas”. É aí que se joga uma transformação mais profunda. “Com isto nós moldamos o mundo.”
As diferenças entre experiências coloniais, sejam elas francófonas, anglófonas, lusófonas não anulam essa leitura. “O fundo é a mesma coisa”, afirma. E esse fundo revelou-se resistente: “a cultura mostrou mais uma vez que permanece, prevalece e prevalecerá”.
Durante muito tempo essa permanência não foi visível ou não foi reconhecida. O centro de decisão cultural estava noutro lugar, o que era contemporâneo, o que era legitimado, vinha do Ocidente. A exposição responde a isso sem estridência. “Não foi falado porque nunca se parou”, diz Nu Barreto. A criação existia, apenas não era escutada. O que se vê agora é, nas suas palavras, “uma resposta de que não conseguiram impedir”.
Mas não há aqui uma lógica de confronto puro. Nu Barreto fala antes de circulação, de mistura inevitável: “o europeu consome o africano, o africano consome a cultura europeia”. O mundo, lembra, “sempre esteve em movimento”. E é nesse movimento que a moda se inscreve.
Há peças que o tornam evidente. Tecidos com séculos de história, padrões que atravessaram gerações, técnicas que persistem. De repente, uma roupa deixa de ser apenas roupa. Torna-se arquivo, memória, símbolo. “É simplesmente uma obra de arte”, diz Barreto.
Mas com uma diferença essencial: vive no corpo, circula e é usada. Não fica presa à contemplação. “Eles pegam naquilo que é cultural para incorporar dentro da própria sociedade”, explica. A arte, aqui, não está apenas exposta está em uso.
Nalgumas salas, essa relação torna-se mais tensa, mais irónica. Surgem obras que cruzam referências africanas com marcas ocidentais, num jogo de apropriação e crítica. Nu Barreto reconhece o gesto de Hassan Hajjaj que muitas vezes “é provocação”. E lembra que a arte tem esse lugar “é provocativa”.
A moda, mesmo quando mais discreta, participa desse gesto. Questiona, desloca, reinterpreta. Mas talvez o eixo mais persistente seja outro: a liberdade. “A moda é uma forma de contar quem somos”, diz e acrescenta que é também a “liberdade de ousar”.
Num campo tantas vezes marcado por normas rígidas, essa ideia abre espaço. “Há de tudo para todos.” A frase é simples, mas carrega a ambição de querer tornar a moda um território inclusivo, onde cada corpo possa existir, mas, ainda assim, insuficiente. “Ainda podemos ir além”, diz.
Essa vontade de ir além cruza-se com outra dimensão forte na exposição: a memória. A moda, aqui, não é apenas inovação.“Vai e vem, nunca para”, observa. Não se trata de repetição literal. Há adaptação, transformação e “tem que se adaptar”, explica Nu Barreto, acrescentando que há um processo de procura de imagem: “uma espécie de espiral”.