Reportagem · 18 de jun. de 2026 · 11:40
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Lisboa vai ter a primeira Festa do Dia da Criança Africana. Um dia de festa pensado para as famílias de todas as origens mas onde se celebram as raízes africanas. Uma data a coincidir com os protestos de crianças e jovens sul-africanos do bairro de Soweto, em Joanesburgo, a 16 de Junho de 1976, contestando a imposição da língua Afrikaans no ensino, uma língua associada à minoria branca.
Há 50 anos, a 16 de junho de 1976, milhares de crianças e adolescentes sul-africanos saíram às ruas de Soweto, em Joanesburgo, para desafiar o regime do apartheid que impunha a segregação entre brancos e negros. Os estudantes manifestavam-se contra a fraca qualidade de ensino e contra o ensino da língua Afrikaans, usada apenas pela minoria branca.
A repressão policial que se seguiu provocou centenas de mortos e milhares de feridos. Em memória das vítimas, o dia 16 de junho foi instituído como o Dia da Criança Africana.
Agora, Lisboa vai ter a primeira Festa do Dia da Criança Africana. Um dia de festa pensado para as famílias de todas as origens mas onde se celebram as raízes africanas.
Workshops criativos, jogos tradicionais, concursos com prémios, hora do conto, música e dança, artesanato e gastronomia, são alguns dos elementos que fazem parte do programa da Festa do Dia da Criança Africana.
O evento, pensado para as famílias criarem memórias, apresenta-se como uma oportunidade para todos descobrirem a riqueza das culturas africanas, acontece já este sábado, 20 de junho, na capital portuguesa, nos Jardins do Bombarda.
Rafaela Kieto, da organização do evento, começa por nos contar como surgiu a ideia de realizar a Festa do Dia da Criança Africana.
Rafaela Kieto, organização da Festa do Dia da Criança Africana:
Esta ideia esteve a marinar mais ou menos uns seis, sete anos. Surgiu numa conversa, num café, no Porto, curiosamente. Eu e alguns amigos a falar sobre o facto de que não tínhamos, sentíamos que não havia, muitas coisas culturais para as crianças africanas. Não havia festas, não havia oportunidades de convívio, oportunidades de aprenderem um pouco mais sobre a cultura, para além do que conhecem em casa. Porque é muito comum, para nós africanos que estamos na diáspora, por exemplo, ao fim de semana, juntarmos a família, comemos comida da terra, ouvimos música. Mas depois, aquelas coisas, os jogos tradicionais, os símbolos nacionais, tudo o resto fica um bocado perdido e as nossas crianças não têm oportunidade de vivenciar isso que alguns de nós tivemos.
Então, partiu daí. Começou a criar-se o bichinho, estivemos a falar sobre isso, ficou na minha cabeça.
Entretanto veio a pandemia e, durante um tempo, obviamente, não pudemos fazer nada. Mas recentemente revisitámos a ideia, estivemos a namorar durante uns tempos, a pensar, ok, fazemos, não fazemos, fazemos, não fazemos. E em 2026 decidimos que ia acontecer.
A Festa do Dia da Criança Africana acontece este sábado. O que é que faz parte do cartaz, o que é que faz parte da programação desta festa?
Ora bem, nós vamos ter um dia com muitas actividades. Desde a Hora do Conto, onde vamos ter quatro escritores africanos da diáspora que vêm apresentar as suas obras, porque para nós também é muito importante haver representação na literatura, nós sabemos que nós vamos a lojas, a livrarias comprar livros e, infelizmente, muitas vezes, podemos gostar muito das histórias mas não nos revemos necessariamente nelas, então é muito importante que possamos ter esses escritores; vamos ter workshops de dança, danças tradicionais africanas; vamos ter também um workshop de saúde e mobilidade, porque achamos que é muito importante também, vou ser muito sincera, culturalmente às vezes é algo que não se dá muita importância, fica meio que para segundo plano, damos mais importância à educação e ter boas notas, mas é muito importante ensinar as nossas crianças que, ok, vocês têm que cuidar da vossa saúde, têm que cuidar do vosso corpo; e vamos ter muitos workshops de jogos tradicionais africanos, de Angola, vamos ter de Cabo Verde, da Guiné, do Senegal. Então, é uma oportunidade também para dar a conhecer, não só às crianças africanas, atenção, a todas as crianças para virem e aprenderem.
O objectivo não é só partilhar cultura africana com as crianças de origem africana, ou descendentes de pais de origem africana, mas também partilhar essa cultura com crianças de outras origens?
Sim, é mesmo esse o objectivo. É para celebrar em primeiro lugar as nossas crianças, mas é um evento de portas abertas, é para todas as crianças, toda a gente é bem-vinda. Eu acho que quanto mais cedo nós aprendermos sobre as outras culturas, mais facilmente criamos empatia pelos outros, melhor entendemos os outros. Então, sim, é aberto a todas as crianças.
Esta primeira festa do Dia da Criança Africana está direccionada à temática dos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP). A Rafaela é angolana, como é que foi feita a ponte com os outros países dos PALOP [Países africanos de língua oficial portuguesa] ?
Sim, porque África tem 54 países, se eu não estou enganada, era muita coisa para estar representada na primeira edição. Tendo em conta que nós estamos em Lisboa, que é extremamente multicultural, temos imensas pessoas das diferentes comunidades africanas que falam português, achámos que era o mais adequado para começar.
Como é que se fez a ponte? Amigos, amigos de amigos, contactar associações, e ficamos muito contentes porque toda a gente aderiu e gostou muito da ideia. Então, graças a Deus, temos uma adesão enorme e toda a gente vai estar bem representada.
Já falámos um pouco do p