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Afirmar a “Lisboa Africana” com passado, presente e futuro

Reportagem · 3 de abr. de 2026 · 16:26

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“Lisboa Africana” é uma web-série que nasce da vontade de partilhar a memória africana da capital portuguesa. Ao longo de 15 artigos e cinco vídeos, a série produzida pela publicação digital Bantumen estabelece a ponte entre passado e presente, e desenha caminhos de futuro.

A RFI falou com a jornalista e directora da Bantumen, Marisa Mendes Rodrigues.

“Lisboa Africana” é uma web-série que nasce da vontade de partilhar a memória africana da capital portuguesa. Ao longo de 15 artigos e cinco vídeos, a série produzida pela publicação digital Bantumen estabelece a ponte entre passado e presente, e desenha caminhos de futuro.

Como que numa sugestão de registo onde a História transdisciplinar é a catapulta, “Lisboa Africana” resgata e dá luz a elementos até então pouco ou nada valorizados. Os locais, as pessoas, os feitos, o singular e o plural, são reconhecidos nesta “Lisboa Africana” que se afirma desde as primeiras chegadas até à actualidade.

A RFI falou com a jornalista e directora da Bantumen, Marisa Mendes Rodrigues, que começa por nos explicar o que é a web-série “Lisboa Africana”.

Não tem nada a ver com revisionismo histórico, eu acho que é importante deixar isso claro, mas é um bocadinho partir desta cidade que nós conhecemos e ir à procura destas histórias que estão escondidas. Olhar um bocadinho mais a fundo para sítios, para toponímias, por onde nós passamos diariamente, e desvendar as histórias que estão aí por trás. É outra parte da história que eu não digo que esteja escondida, até porque temos evidências, mas que nem sempre é contada. É abrir espaço para que essas histórias possam existir também.

Histórias relacionadas com a presença africana na capital portuguesa?

Sim! Sim, sim!

Já foram publicados três artigos, o primeiro artigo vai muito atrás, vai às origens.

O primeiro artigo conta-nos as chegadas e traz-nos um recorte temporal e social também de quem eram estas pessoas que chegaram aqui, o que é que elas faziam. Nem todas eram escravas, havia muitas pessoas que eram os chamados forros, que contribuíam activamentepara a própria dinâmica da cidade. Então, o primeiro artigo vai a 1443, 1444, parte dali, até de um excerto de (Gomes) Eanes de Zurara, e é a partir daí que depois vamos olhando para a história e traçando a presença de pessoas africanas cá.

Depois temos alguns apontamentos, algumas curiosidades, como o Parque de Estacionamento de Lagos, onde se descobriram ossadas, temos referências à Igreja do Rossio, que era uma confraria, que era aquilo que já na altura era chamado de comunidade, era um pequeno espaço que existia ali. Então, eu acho que o primeiro episódio é enquadrar de facto esta presença na cidade que não é de agora.

Depois, com o segundo artigo, avançamos no tempo?

Avança. Fala muito sobre o bairro do Mocambo, que é a actual Madragoa, que antes chamava Rua das Trinas do Mocambo, agora só Rua das Trinas, e é feita toda essa análise, traçamos tudo o que havia por lá, as varinas, também a forma como algumas mulheres negras já vendiam peixe, já estavam completamente envolvidas naquela que era a dinâmica económica da sociedade.

Depois disso passamos para o terceiro artigo, que é a Casa dos Estudantes do Império, que eu acho que para nós, assim a nível de redacção, foi o “uau!”. Ele dá-nos a noção também da virada de chave e daquilo que a Casa dos Estudantes do Império representou, até para depois aquilo que veio a ser o processo de independência das antigas colónias.

Ainda vão sair mais artigos, mas o terceiro tem um lugarzinho muito especial.

Pode adiantar-nos um pouco daquilo que se encontra nesse terceiro artigo, que é tão apelativo?

Sim. A Casa dos Estudantes do Império surge como uma forma de congregar no mesmo espaço estudantes que vinham das antigas colónias, a ideia inicial estava voltada para aquela que era a ideologia do Estado Novo e - anular o surgimento de - ideais protonacionalistas. Mas dá-se depois o reverso da medalha, que é aqueles estudantes, aquelas pessoas todas juntas, no qual temos nomes como Lúcio Lara, Mário Pinto de Andrade, Amílcar Cabral, o próprio Pepetela, que se juntam ali e começam a ver que têm ideais em comum e que esses ideais nada têm a ver com a ideologia do Estado Novo. Então, começa a surgir através da arte, da literatura, etc. começam ali a surgir os primeiros ideais revolucionários, com o jornal Mensagem a ter um peso muito importante depois também na difusão desses ideais.

Antes da Casa dos Estudantes do Império, havia casas de estudantes onde estavam os estudantes vindos de cada uma das antigas colónias portuguesas, estavam separados. Mas a Casa dos Estudantes do Império acaba por juntar toda a gente e é aí que, entre aspas, o bolo fermenta e começa a crescer.

No artigo até há uma parte em que nós dizemos que o feitiço se virou contra o feiticeiro, porque o que sai dali nada tem a ver com o que era o objectivo inicial. O artigo até diz, há um excerto que diz que a ideia era elegante. Foi muito bem pensado, só que não correu como esperado.

Este é material em texto, mas depois há também material que vai ser publicado em vídeo. O que é que se pode esperar?

O material em vídeo vai na mesma linha. O primeiro episódio em vídeo é igual ao primeiro episódio em texto e fala-nos sobre a chegada. É um episódio onde os nossos convidados olham para as chegadas e discutem entre eles, falam entre eles sobre o tema. Depois, os episódios seguintes são muito mais voltados não para o século XX, mas muito mais voltados já para os tempos de hoje. Para sermos justos na análise, para o período pós-independência, que é depois também onde se dá aquela vaga de imigração das antigas colónias para cá. Um dos episódios tem o foco nisso. A imigração, as casas autoconstruídas, como é que estas

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