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Dina Salústio: “A nossa sociedade precisa de gente que incomode!”

Reportagem · 10 de abr. de 2026 · 13:46

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Dina Salústio escreveu "A Louca de Serrano". O icónico romance, que é considerado a primeira obra de ficção escrita por uma mulher em Cabo Verde, e já inspirou múltiplos estudos académicos em instituições de diferentes latitudes, conheceu a primeira edição em Cabo Verde no ano de 1998. Agora, A Louca de Serrano tem a edição portuguesa com a chancela da Rosa de Porcelana.

A reconhecida e premiada autora cabo-verdiana Dina Salústio, que é membro fundador da Academia Cabo-verdiana de Letras, está em Portugal para o lançamento da edição portuguesa de A Louca de Serrano.

A RFI aproveitou a ocasião para entrevistar Dina Salústio. Um momento onde, entre outros temas, nos fala de Cabo Verde, da força da mulher cabo-verdiana, de crianças, da solidão, de machismo, de suicídio, de democracia, e de como conseguiu avançar na direcção de publicar a primeira obra.

Dina Salústio: Em Cabo Verde não havia tradição da mulher publicar. O primeiro livro que foi publicado por uma mulher foi depois da Independência. Até lá não havia um livro assinado por uma mulher cabo-verdiana, em Cabo Verde.

Nós não tínhamos essa tradição de escrever, de publicar. Eu já tinha visibilidade na literatura, porque eu trabalhava na rádio, tinha dois programas financiados pela Unesco, para temas diversos, apoio às crianças na aprendizagem do português. Eu aproveitava e tinha os meus textos todos na rádio e nos jornais também. Aquilo que sobretudo os homens queriam, um bocado de visibilidade, para mim já não fazia sentido, porque eu já estava.

Entretanto, fiz o romance e apresentei a dois grandes amigos meus, dei o livro para ler. Eles disseram que gostaram, mas assim, aquele gosto que não te comprometes. Eu fiquei assim um bocado desiludida, mas não desisti, guardei o livro. Entretanto, uma editora, numa revista de Artes e Letras, Laritza Rodrigues, disse, “e se a gente publicasse em fascículos?” Eu disse, “olha, pode ser”, porque é uma tradição já dos escritores, publicar os seus livros em fascículos. E publicou a sinopse do primeiro capítulo.

Entretanto, nós desistimos, não sei porquê, mas havia um hiato muito grande entre a saída do um número e o outro, nós desistimos dessa forma.

Mais tarde, José Luís Hoppfer Almada e mais José Vicente Lopes, grandes amigos meus, donos de uma editora, conseguiram um financiamento, porque o problema do financiamento era muito grave em Cabo Verde. Conseguiram um financiamento e publicaram o meu livro, mas já muitos anos depois.

A Louca de Serrano, como é que aparece? Eu não queria escrever sobre a loucura, claro, queria escrever sobre o isolamento, sobre a solidão, sobre o silêncio, sobretudo.

Porque era um quadro que eu via muitas vezes, seja dentro de famílias, seja fosse nas comunidades, então eu resolvi escrever isso. Mas depois, já sabe, os personagens tomam conta do livro. E no fim, a meio, aliás, do livro, eu vi que já estava a falar sobre a loucura. E vim ver então como é que a loucura chega às páginas do meu livro. Era tudo resultado do silêncio, da solidão, da não fala, da exclusão, do machismo, da violência. Tudo isto levou à loucura.

RFI: É uma loucura que é um pouco de um retrato da sociedade cabo-verdiana?

Um pouco, um pouquinho, talvez, da sociedade cabo-verdiana. Mas também, neste momento em que nós estamos a falar de doenças mentais, de desequilíbrios, de anomalias, de pessoas que fogem rapidamente de uma margem para a outra, uma insegurança muito grande, eu acho que é um fenómeno mundial.

Quer dizer, há um silêncio sempre a perseguir-nos, que está dentro de nós, por exclusão, por preconceito, por falta de atingir os objectivos. Nós estamos muito pouco resistentes a uma força interior que nos eleva para cima da loucura, que eu chamo loucura, mas não será loucura, claro, em termos médicos, em termos clínicos. É essa loucura de não se dominar o momento.

Eu acho que a loucura preocupa toda a gente, porque nós, em princípio, nós queremos viver numa sociedade onde a gente se olha nos olhos e, quando estamos perturbados, não conseguimos enfrentar. Olhar nos olhos é enfrentar a vida, é enfrentar os problemas, é enfrentar sobretudo a nós mesmos.

E a questão do suicídio, por exemplo, suicídio em jovens, eu penso que não será mesmo uma loucura identificada clinicamente, mas é uma fraqueza dos nossos jovens.

Eu estou a falar do suicídio nos jovens aqui, em Cabo Verde, em qualquer lado. Em todos os lados nós estamos a ver isso, miúdos que, de repente, desistem. Eu acho que eu queria que os nossos jovens não desistissem, que a nossa sociedade se preocupasse mais com os filhos, com os alunos, com as pessoas, com os jovens, e que lhes desse essa esperança que está em nós. Nós habituámo-nos a um certo comodismo e esquecemo-nos de nos valorizarmos.

Eu penso que isso é que está a levar um bocado, esse tipo de loucura, esse tipo de desistência que o livro fala.

Entretanto, no livro, a louca de Serrano, essa louca é uma jovem que é a consciência do povoado de Serrano. Aquilo que as pessoas não querem ouvir, aquilo que elas não querem dizer, aquilo que elas não querem sentir, está sempre ali a louca de Serrano pronta para lhes dizer a verdade, para incomodar, para perturbar.

A nossa sociedade precisa de gente que incomode! Precisa de gente que perturba o lar tranquilo.

Este é o momento do lançamento em Portugal de uma obra que já tem alguns anos de editado em Cabo Verde. Há outros trabalhos para serem editados, já escritos?

Sim, já tenho um trabalho escrito, um romance. Mas deu uma volta e eu parei. Parei porque acho que faltava qualquer coisa, que falta qualquer coisa no romance. Muitas vezes a gente escreve um romance e depois fica... diz porque é que eu fiz disso?” Não

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