Reportagem · 26 de mar. de 2026 · 10:37
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A Girafa de Noah é um livro dedicado ao público infanto-juvenil sobre amor, saudade e a descoberta da força interior. A Girafa de Noah é também um livro onde as crianças negras se podem ver representadas e que se propõe contribuir para que todas as crianças aprendam a lidar com a perda.
A obra marca a estreia do jornalista e apresentador de TV Wilds Gomes no mundo literário e foi recentemente lançada em Portugal.
Com uma história de vida ligada a Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, onde nasceu, Wilds Gomes vive em Portugal desde criança mas, em entrevista à RFI, não esconde o desejo que “A Girafa de Noah” venha a ter uma versão em crioulo de Cabo Verde e outra em crioulo forro de São Tomé e Príncipe.
Wilds Gomes começa por revelar que a obra, ilustrada por Ana Marta Huffstot, nasceu da vontade de contar histórias aos filhos.
Wilds Gomes:
(A Girafa de Noah) Nasce muito do facto de ser pai. Desde que me lembro de ser pai, que eu gosto de contar histórias, gosto de escrever. Então, quando comecei a ler para os meus filhos, comecei a perceber que havia falta de representatividade nos livros. Os meus filhos são crianças negras, tal como o pai, e eu via que não estavam e nem se sentiam representados nos livros que eu lia todas as noites. Porque sempre quis incutir aos meus filhos que ler é importante. Mas também, muito mais do que ler, é ouvir, saber ouvir.
Então, foi quase que uma luta todas as noites o procurar uma história diferente, ou sempre que fosse comprar uma história para os meus filhos, procurar histórias de autores negros e com personagens negras. Então, comecei a pensar, porque não ser eu a mudar, de alguma forma, esse paradigma, o mudar eu essa narrativa de que não há. Se não há, vou criar ! Então, comecei a pensar no livro já faz mais de seis anos.
Há quatro, comecei a pensar seriamente no livro depois de ter escrito algumas histórias. Falei com uma amiga, a Ana Marta, que é designer e também é ilustradora. - ‘Pá, porque não fazemos aqui os dois essa maluquice de escrever e ilustrar um livro para crianças? Um livro infantil-juvenil, para as crianças lerem, principalmente para as crianças negras se verem representadas. - Então, foi daí que começou o sonho.
De que é que nos fala esta história, A Girafa de Noah?
A Girafa de Noah é uma história, primeiramente, inspirada nos meus filhos, nas suas vivências e realidade. Portanto, A Girafa de Noah fala muito da perda, de perdermos alguma coisa; porque as crianças não são ensinadas a lidar com o facto de perderem alguma coisa. Quando falo de perder alguma coisa, não é só fisicamente, também muito espiritualmente. Como é que se pode lidar com isso? Então, a minha ideia, ao escrever um livro, é que cada livro tenha um ensinamento. Cada livro tem uma narrativa que serve para alguma coisa. Então, A Girafa de Noah é o Noah (filho de Wilds Gomes) que perde a girafa, que é algo muito importante para ele. Ele, desde que se conhece como gente, ou como criança, anda com a girafa o tempo todo. Há uma fase em que ele perde esse animal simbólico, que é a girafa, e não sabe como lidar. Então, a trama da história passa-se muito à volta de que ele perdeu, algo de que ele gostava mesmo muito e era muito importante para ele. Como é que ele aprendeu a lidar com aquilo e que fato é que aquilo realmente fez e que ensinamento aquilo passou?
O livro foi lançado recentemente, já houve reacções? Como é que o livro está a ser aceite?
O livro foi lançado oficialmente no dia 1 de março, aqui em Lisboa, na Livraria Menina e Moça. Estavam mais de 100 pessoas, sala completamente esgotada. Levei cento e poucos livros que ficaram esgotados naquele momento. E, desde então, as pessoas têm-me dado um feedback muito positivo, principalmente os adultos.
Este livro remeteu-me muito a uma fase da minha vida em que eu perdi alguém muito importante para mim e tive que aprender a lidar com isso. Este livro ajudou-me também a curar de alguma forma aquilo que eu sentia naquela altura.
Muitos pais disseram que as crianças gostaram muito da história. Primeiramente, porque se viram representadas naquele menino, que é o Noah, que é um menino negro, uma criança negra bonita, linda mesmo, e também o facto de terem também um brinquedo que muitos deles também, entretanto, perderam e não sabiam lidar com isso.
Então, lerem uma história em que se vêem representados e de alguma forma os ajuda a curar de alguma coisa, para mim é a ceereja no topo do bolo.
O Wilds Gomes junta raízes de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe. Há alguma lembrança das histórias que ouvia dos avós, dos pais, enquanto criança, enquanto vivia em São Tomé e Príncipe?
Sim. Eu vivi em São Tomé durante muito pouco tempo da minha vida, máximo até os 5 anos. Entretanto, vim para Portugal, mas tenho uma vaga ideia porque, lá está, é muito do que me contam e eu não sei até que ponto é que é real ou não, se é mesmo imaginação da minha cabeça.
Mas a primeira coisa que eu me lembro é de ter um brinquedo na casa dos meus avós, que era um camião verde e rosa, é a melhor memória da infância que eu tenho, na minha infância em São Tomé e Príncipe. Depois disso, vêm muito as histórias da minha avó. A minha avó era daquelas pessoas que até hoje, eu estou com 34 anos, até hoje a minha avó, que é viva, quase com 90 anos, conta-me ainda as histórias da sua infância. Conta-me histórias da sua vida. Conta-me histórias do que aconteceu à volta de nós em São