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200 anos da fotografia - Délio Jasse: "Olhar para trás para construir o futuro"

Artes · 16 de set. de 2026 · 8:58

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Duzentos anos depois de Nicéphore Niépce ter fixado uma imagem de forma permanente, a RFI assinala o bicentenário da fotografia com o projecto multimédia “200 Anos-Luz”. Para o fotógrafo angolano Délio Jasse, a multiplicação das imagens não destruiu o olhar, mas tornou-o mais apressado. O desafio continua a ser regressar aos arquivos para compreender o presente e construir novas memórias.

Há dois séculos, o extraordinário era conseguir fazer uma imagem permanecer. Hoje, num mundo em que se produzem e descartam milhares de fotografias todos os dias, o problema parece ser o contrário: como fazer uma imagem durar? Para Délio Jasse, fotógrafo angolano cujo trabalho cruza fotografia, documentos e arquivos, não deixámos de olhar, mas alterámos a maneira como o fazemos. “Banalizámos um bocado este olhar. Não perdemos, continuamos a olhar. Mas banalizámos a maneira de olhar para a fotografia. Esse é o grande problema.”

Convidado pela RFI a pensar estes 200 anos de fotografia a partir de uma única imagem, Délio Jasse regressa a Angola e a uma fotografia de Agostinho Neto que guarda desde cedo na memória. “Como cidadão, como observador, tenho essa imagem muito presente de Agostinho Neto, de 1974”, explica, evocando o retrato que viria também a circular em notas e outros suportes oficiais. Não é apenas a figura representada que lhe interessa, mas aquilo que aquela imagem anuncia: uma nova linguagem visual no momento em que o país se aproximava da independência.

Para o fotógrafo, olhar para o passado nunca significa simplesmente reproduzi-lo. O arquivo é matéria de transformação. “Inventar, não. Mas construímos uma nova memória”, afirma. “Temos sempre de olhar para trás para seguirmos em frente e construirmos. Porque, na verdade, o futuro é agora.” No seu trabalho, fotografias, carimbos, documentos administrativos e vestígios anónimos deixam de funcionar apenas como testemunhos de uma época e tornam-se materiais para produzir outras leituras dessa mesma história.

Essa relação com o arquivo ganha ainda mais importância num tempo dominado pela imagem digital. A rapidez trouxe novas possibilidades, mas também novas dúvidas. “Quando olhamos para uma fotografia digital, é facilmente manipulada”, observa. Délio Jasse lembra que a fotografia analógica também foi manipulada ao longo da história, mas considera que a facilidade técnica contemporânea contribuiu para enfraquecer a atenção: “Esse não olhar para a fotografia com olhos de ver acaba sempre por dar uma outra perspectiva.”

O digital, contudo, não é para ele um inimigo do analógico. Pelo contrário, os dois coexistem no seu processo criativo. “Cruzo as duas ferramentas, digital e analógico”, explica. Continua a recorrer a técnicas antigas de impressão, como a cianotipia e outros processos históricos, combinando-as com meios digitais e com uma investigação sistemática de fotografias e documentos encontrados.

É precisamente nesses materiais aparentemente insignificantes que Délio Jasse procura novas histórias. Documentos comprados em mercados ou encontrados na Feira da Ladra podem transformar-se no ponto de partida de um trabalho. “Ninguém lhes dá importância nenhuma. Eu retiro desse anonimato um arquivo oficial e exponho pequenos fragmentos, pequenas nuances que estão nesses documentos e fotografias.”

Fotografar uma fotografia faz também parte desse processo. Ao reproduzir uma imagem antiga em papel, muitas vezes já sem o negativo original, o fotógrafo cria um novo objecto. “Crio um novo documento, crio um novo negativo para estas fotografias que não tinham negativo. Crio um segundo negativo a partir do meu olhar”, explica. A reprodução deixa, assim, de ser apenas uma cópia: passa a integrar uma nova camada de interpretação.

E há informação que só sobrevive precisamente porque a fotografia existe enquanto objecto físico. “Quando tens uma fotografia em papel, por detrás da fotografia temos um carimbo, ou uma dedicatória do avô ou do bisavô de alguém”, observa. “No negativo não temos informação nenhuma, não sabemos qual é a proveniência.” Para Délio Jasse, o verso de uma fotografia, o nome do impressor, uma data ou uma dedicatória podem ser tão importantes para a investigação como aquilo que aparece na própria imagem.

É nesse cruzamento entre imagem, documento e História que regressa a fotografia escolhida pela redacção em português da RFI para o projecto “200 Anos-Luz”: Amílcar Cabral, em 1971, a caminhar numa zona libertada da Guiné-Bissau, acompanhado por outros homens, quando a independência ainda estava por conquistar.

Délio Jasse vê nessa fotografia uma mudança de estatuto. “Para mim, esta imagem é muito importante porque é uma imagem séria. Cabral já não estava escondido nas matas. Já era visto como um político, um libertador”, considera. Depois de saber que a fotografia foi realizada pela italiana Bruna Polimeni, sublinha sobretudo a transformação visual de Cabral: “Já tinha um olhar de libertador, de revolucionário, de político, já não como o militar escondido nas matas.”

A fotografia foi feita antes da independência, mas é hoje inevitavelmente observada à luz do que aconteceu depois. Ainda assim, Délio Jasse acredita que há imagens capazes de conservar uma força própria para além da interpretação que lhes acrescentamos. “É uma imagem que nos fala por si. Tem muito por trás dessa imagem”, afirma. E lembra que, em 1971, a relação do público com a fotografia era profundamente diferente: “Não havia tanto acesso à fotografia como hoje. Esta fotografia era muito importante para a altura.”

Entre o Agostinho Neto que Délio Jasse guarda na memória e o Amílcar Cabral escolhido pela RFI há, afinal, uma questão comum: quem passa a ter o poder de construir a própria imagem. No caso de Agostinho Neto, o fotógrafo vê o apare

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