Convidado · 11 de set. de 2026 · 8:49
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Braga recebe a 4.ª edição do festival Paraíso, dedicada ao tema “Passado e Futuro na Afrodescendência”. Cinema, música, dança, gastronomia e conversas servem de ponto de partida para pensar memória, representatividade e pertença. Para o coordenador do festival, Nuno Abreu, o objectivo é criar um espaço onde diferentes comunidades possam não apenas assistir, mas também participar na construção das narrativas.
O Paraíso regressa a Braga com uma pergunta que atravessa toda a programação: o que fazer, no presente, com aquilo que se herda do passado? Na 4.ª edição, o festival escolheu colocar “Passado e Futuro na Afrodescendência” no centro de dois dias de cinema, dança, música, gastronomia e reflexão.
Para o coordenador de Assessoria de Imprensa, Conteúdos e Acessibilidade do Paraíso, Nuno Abreu, juntar estas duas temporalidades não significa apenas olhar para trás e imaginar o que vem depois. Significa, sobretudo, interrogar o presente. “Todos os anos elegemos um tema associado às questões afrodescendentes. Este ano escolhemos passado e futuro porque queremos propor uma reflexão colectiva”, explica.
Essa reflexão começa em Braga e com quem vive na cidade. O festival procura envolver estudantes, investigadores, artistas, agentes culturais e organizações locais na própria construção da edição. “Queremos pensar as formas de existir daquilo que recebemos desta herança que é a afrodescendência e pensar nas realidades que queremos construir e que, neste momento, já estão a ser construídas.”
Entre os participantes estão representantes da Secção de Estudantes Africanos da Universidade do Minho, agentes culturais residentes na região e organizações que trabalham com comunidades migrantes e afrodescendentes. Para Nuno Abreu, esta ligação ao território é essencial. “O Paraíso quer demonstrar essa realidade: as pessoas que trabalham cá, que vivem cá e que querem mostrar à população e às comunidades o trabalho que tem sido feito para que a nossa sociedade seja o mais justa possível.”
Mas programar culturas afrodescendentes envolve também um risco: transformá-las numa sucessão de manifestações artísticas apresentadas a partir de fora, como se fossem apenas objectos de exposição. É precisamente isso que o festival procura evitar. Em vez de construir toda a programação a partir de uma direcção central, o Paraíso entrega parte da curadoria a pessoas e organizações ligadas aos temas em discussão.
“O que fazemos desde o início é convidar pessoas e organizações para fazerem a curadoria das várias áreas, tanto no pensamento como na mediação e nas artes de palco”, explica Nuno Abreu. “Convidamo-las para idealizarem aquilo que querem fazer, quem querem convidar e sobre o que querem conversar e discutir.”
É também desta lógica que nasce, por exemplo, a curadoria de cinema entregue a Kitty Furtado, que escolheu uma obra da realizadora Vanessa Fernandes e participa na construção da conversa em torno do filme. A opção responde, segundo Nuno Abreu, a uma questão mais profunda de representatividade. “Talvez por falta de representatividade de artistas afrodescendentes nos teatros nacionais, nós convidamos sempre pessoas e organizações para fazerem a curadoria destes elementos.”
A 4.ª edição cruza-se com as comemorações dos 30 anos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, uma associação que nasce precisamente de países ligados por uma história marcada também pelo colonialismo português. Nuno Abreu não foge à contradição. Pelo contrário, considera-a matéria para discussão. “Todas as contradições interessam para a construção de pensamento. Queremos que o Paraíso seja um espaço plural em termos de perspectivas sobre o que é a afrodescendência e também sobre o que é a afrodescendência lusófona.”
A própria língua entra, assim, no debate. “O que é que a nossa língua representa para toda a gente? E o que representam outras línguas, como os crioulos dos vários países africanos de língua oficial portuguesa?”, questiona. Para o responsável, memória e futuro não precisam de aparecer como forças incompatíveis. “Falamos sobre o que são as heranças e sobre o que são as construções do futuro. Elas podem, se calhar, andar de mão dada.”
Também não é indiferente que esta conversa aconteça em Braga. Se grande parte dos debates sobre racismo, imigração ou afrodescendência tende a concentrar-se em Lisboa, o Paraíso nasceu precisamente da vontade de descentralizar essas discussões. “A maior parte da população afrodescendente reside em Lisboa, mas em Braga também reside, também existe”, lembra Nuno Abreu. “É preciso perceber se estas pessoas estão felizes cá, se usufruem culturalmente dos espaços, se são artistas ou investigadores e que espaço é que essas pessoas têm.”
A questão, sustenta, é perceber como se vive a experiência afrodescendente fora da capital. “É importante Braga estar no mapa com um programa artístico como este e conseguir perceber de que forma todas estas pessoas vivem uma cidade como Braga e não uma capital.”
Essa preocupação conduz a outra palavra central do festival: acessibilidade. Não apenas no sentido físico de entrar num espaço cultural, mas também no sentido económico e simbólico de sentir que esse espaço é para todos. Cerca de 80% da programação do Paraíso é gratuita. Conversas, sessões de cinema e outras actividades podem ser frequentadas sem compra de bilhete. “Não é obviamente só uma população afrodescendente que tem dificuldade em comprar um bilhete para ir a um espectáculo. Uma população portuguesa que não seja afrodescendente também tem”, lembra Nuno Abreu. Por isso, acrescenta, “o Paraíso tem-se pautado por ser um evento maioritariamente gratuito, para que o número máximo possível de pessoas, de qualquer nacionalidade, que vivam em Braga sejam bem-vindas”.
A ambição