Convidado · 2 de out. de 2026 · 9:24
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Na Guiné-Bissau, o Alto Comando Militar, que levou a cabo o golpe de Estado de Novembro do ano passado, em comunicado, anunciou esta quinta-feira que não estão reunidas as condições de segurança para garantir o regresso ao país do ex-presidente Umaro Sissoco Embaló. Um regresso que estava anunciado para o dia 04 de Outubro e depois do porta-voz do Conselho Nacional de Transição, Fernando Vaz, ter garantido que qualquer cidadão nacional poderia regressar ao país. Em entrevista à RFI, o analista político guineense Fodé Mané admite que a decisão de impedir o regresso do ex-presidente pode fazer parte de uma estratégia de vitimização de forma a reforçar a solidariedade em torno de Sissoco Embaló.
RFI : Como analisa esta reviravolta?
Fodé Mané, analista político guineense: Primeiro, esta situação não é clara para qualquer pessoa atenta. Sobre os órgãos que estão a gerir a transição, ora aparece o Governo, ora aparece o Estado-Maior General das Forças Armadas, ora aparece o Conselho Nacional de Transição, ora o Alto Comando, que tinha surgido em Novembro a anunciar golpe de Estado, e desapareceu até há duas semanas, a tomar alguma decisão.
Isso cria alguma confusão em termos de quem é que manda realmente, qual é a personalidade. E tudo indicava que todos eram submetidos às orientações do comando, mas depois vimos situações que nos criam outras dúvidas.
Por exemplo, na terça-feira, dia 29 de Setembro, houve movimentações um pouco anormais, que levaram com que as pessoas ficassem com um certo susto.
As movimentações de que está a falar têm a ver com o desmantelamento da unidade anti-golpe, que é uma força especial que foi criada durante o mandato do Sissoco Embaló?
Aquilo não está claro se é a unidade anti-golpe, porque depois viram-se movimentações que não eram normais, pessoas a saírem de um sítio para outros em viaturas, outros a pé...
Não se sabe o que é que se está a passar. Depois de criar aquele pânico, veio o Ministério do Interior dar uma conferência de imprensa a dizer que se tratavam de movimentações normais nos quartéis.
Então, não se falou de desmantelamento, mas circularam notícias de que algumas pessoas estariam retidas junto ao Estado Maior das Forças Armadas. Tudo isto torna a situação um pouco confusa.
No meio de tudo isso surgiu o porta-voz, não é só do Conselho Nacional de Transição, mas de todo este regime que é o "Nando Vaz".
O Fernando Vaz?
Sim, a garantir que Umaro Sissoco vem e tem condições. E, surpreendentemente, vimos o comunicado à imprensa com aqueles pontos onde podemos destacar a situação a dizer que não foram reunidas as condições, a retomada da proibição de concentrações e manifestações.
Isso nos levou a pensar nas movimentações que houve nas duas últimas semanas: recolha de nomes, organizações de eventos para irem receber Sissoco. Com a sua declaração, alguns órgãos de comunicação social a dizer que vem no dia 04 [de Outubro]. Então, houve este comunicado que até no início, no meu caso, pensei que era fake news. Só depois de ouvir o porta-voz do Alto Comando confirmar aqueles pontos essenciais do comunicado, e ainda alargando, mas com alguns pormenores.
A situação não é clara, mas pode Umaro Sissoco Embaló estar a perder aliados na Guiné-Bissau?
Eu não consigo afirmar que se trata de perda de aliados. Eu estou a ver isso noutra perspectiva: de que pode ser uma estratégia de tentar controlar a situação e também ter o apoio de alguns parceiros.
Não consigo ver isso na perspectiva de que Umaro está a perder aliados, porque são pessoas colocadas, indicadas, que até hoje - há sinais - de que recebem orientações de Umaro Sissoco Embaló. As pessoas muito próximas do Umaro continuaram a ser nomeadas, os que eram adversários continuam a ser restringidos no sistema e continuamos a ver maior liberdade de actuação por parte dos apoiantes.
Mas quando o Sissoco Embaló anunciou o regresso dele à Guiné-Bissau, tinha que ter a certeza absoluta de que esse regresso era viável ou não?
Será que realmente tinha a intenção de regressar? Nós sabemos que, por vezes, na política, uma das formas de obter a solidariedade é vitimizar-se. Vimos isso no passado, com Nino Vieira, com Carlos Domingos Gomes... Aí, esta vitimização provoca solidariedade, porque nesta situação do Umaro, o que é que vai no pensamento dos seus apoiantes? Que o actual poder é ingrato para com o Umaro. Foram instalados, apoiados, promovidos pelo Umaro, mas agora não estão dispostos a protegê-lo. Vai provocar uma solidariedade para com ele. Pode ser essa estratégia.
Eu duvido que haja realmente uma intenção de voltar naquela circunstância, pode haver intenção de voltar, porque onde qualquer pessoa se sente melhor é no seu país, mas naquela circunstância, daquela forma, organizando uma recepção apoteótica, eu duvido se é a intenção dele.
Ou seja, essa estratégia da vitimização pode corroborar a encenação deste regresso abortado de Sissoco Embaló à Guiné-Bissau, simplesmente para que ganhe mais solidariedade e possa voltar posteriormente?
Pode ter esta dimensão de tentar granjear a solidariedade e criar um certo desgosto para com o regime instalado, que sabe que é um regime de pessoas muito fiéis. Mas também pode ser uma forma de distrair, das pessoas se concentrarem noutros assuntos que não da própria situação que está a ser vivida neste momento.
Mas esse regresso de Umaro Sissoco Embaló também não podia confirmar a seguir o regresso do Domingos Simões Pereira?
Não abre portas. Porquê? Porque o Domingos Simões Pereira foi na base de um despacho judicial e inclusive esse despacho