Vida em França · 10 de set. de 2026 · 12:22
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A Europa tem ciência, indústria e tecnologia espacial, mas continua dependente de terceiros em áreas estratégicas como os lançamentos, as comunicações e o transporte de astronautas. Na Cimeira Internacional do Espaço decorre em Paris, o presidente da Agência Espacial Portuguesa, Ricardo Conde, defende que o desafio já não é provar capacidade, mas ganhar escala, investir e decidir em conjunto.
A nova corrida espacial já não se joga apenas na conquista da Lua ou de Marte. Joga-se no controlo das comunicações, dos dados, dos sistemas de navegação, das infra-estruturas digitais e, cada vez mais, da segurança. É neste cenário que Paris acolhe desde ontem, 9 de Setembro, a primeira Cimeira Internacional do Espaço, reunindo governos, agências, empresas e investigadores para discutir quem terá capacidade de agir e de decidir na próxima economia espacial.
Para a Europa, a questão tornou-se urgente. Entre a supremacia tecnológica dos Estados Unidos, a afirmação da China e o crescimento acelerado de empresas privadas, o continente procura perceber como preservar a cooperação internacional sem transformar essa cooperação numa dependência estrutural.
O presidente da Agência Espacial Portuguesa e chefe da delegação portuguesa no Conselho da Agência Espacial Europeia, Ricardo Conde, começa por rejeitar a ideia de um espaço organizado em blocos fechados. “O espaço nunca se fez, nem nunca se fará, que não seja em cooperação”, afirma, lembrando programas como o Artemis e domínios em que a coordenação entre países é incontornável, como a gestão do tráfego espacial.
Mas cooperar não significa abdicar de capacidade própria. “A Europa, e muito bem, procura afirmar a sua resiliência, no sentido de ter alguma autonomia”, sublinha. Para Ricardo Conde, os últimos anos mostraram até que ponto a dependência pode tornar-se uma fragilidade económica, tecnológica e política.
A pandemia expôs a vulnerabilidade causada pela desindustrialização; a crise energética revelou os riscos de depender de fornecedores externos; e a guerra na Ucrânia voltou a colocar no centro do debate a dependência europeia dos Estados Unidos em matéria de defesa. “Quando se reage e não se planeia, andamos sempre numa situação de dependência”, observa.
O responsável português descreve a Europa como “uma federação de vontades, às vezes boas, outras vezes nem por isso”. E considera que o espaço é hoje um dos terrenos onde essa dificuldade de construir uma estratégia comum se torna mais evidente.
A soberania espacial está, desde logo, ligada à soberania digital. “Ninguém pode constituir-se como resiliente, independente ou autónomo quando está completamente dependente das grandes multinacionais e das grandes empresas americanas em serviços”, alerta. O exemplo mais evidente é o Starlink. A guerra na Ucrânia demonstrou o peso estratégico da constelação de satélites da SpaceX na manutenção das comunicações. A Europa ainda não dispõe de uma alternativa equivalente e prepara a constelação IRIS², destinada a garantir comunicações seguras e maior autonomia europeia, mas cuja plena capacidade só deve chegar no final da década.
A navegação por satélite mostra, contudo, que a dependência pode ser reduzida. Durante décadas, a Europa viveu sob a predominância do GPS norte-americano. Hoje dispõe do Galileo, desenvolvido para assegurar uma capacidade europeia própria. Para Ricardo Conde, é esse tipo de autonomia que terá de ser construído também noutros segmentos. Um deles é o acesso ao espaço. “Quem controla, ou quem controlar, o acesso ao espaço controla a economia espacial”, afirma.
A Europa dispõe actualmente do Ariane 6 e do Vega e começa a assistir ao aparecimento de uma nova geração de lançadores privados. Ricardo Conde vê nesta evolução a possibilidade de criar maior concorrência dentro do próprio continente. “Vai haver uma alteração profunda ao nível da competitividade de que a Europa necessita. Vão aparecer novos lançadores.”
Mas permanece uma diferença simbólica e estratégica importante em relação aos Estados Unidos: a Europa consegue colocar satélites em órbita, mas não consegue enviar autonomamente os seus astronautas ao espaço. Para o presidente da Agência Espacial Portuguesa, não é a tecnologia que falta. “A Europa tem uma capacidade científica e técnica fantástica. Agora precisa de dimensão.”
É aqui que surge um dos maiores obstáculos europeus: a fragmentação. Os Estados Unidos dispõem de um Governo federal, de uma agência espacial e de estruturas de defesa inseridas numa mesma arquitectura nacional. Na Europa, as decisões distribuem-se entre a União Europeia, a Agência Espacial Europeia e dezenas de Estados com prioridades e níveis de investimento diferentes.
“É uma questão de escala, é também uma questão de consenso político, de vontade política”, resume. Um eventual programa europeu de transporte tripulado exigiria anos de desenvolvimento, recursos financeiros substanciais e, sobretudo, um compromisso político prolongado entre os países.
O contraste com a SpaceX ajuda a perceber a dimensão do desafio. Para Ricardo Conde, é errado olhar para a empresa de Elon Musk apenas como o triunfo isolado da iniciativa privada. A SpaceX cresceu apoiada em contratos públicos e numa relação estreita com a NASA e com as estruturas de defesa norte-americanas. Esse investimento permitiu construir uma cadeia quase completa: foguetes reutilizáveis para reduzir o custo dos lançamentos, Starlink para assegurar conectividade e naves capazes de transportar astronautas para a órbita. “Na realidade, tem a cadeia de valor toda”, observa.
E a corrida não vai parar nos satélites. Na perspectiva do responsável português, os próximos anos deverão acelerar o desenvolvimento de serviços realizados directamente em órbita. Entre os projectos discutidos pela indústria encontram-se mesmo futu