Uma palavra no seu caminho · 4 de out. de 2026 · 11:14
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Ao ouvirmos a Palavra de Deus, a imagem da vinha fica na nossa memória. Isaías canta o cuidado de um amigo pela sua vinha. Apesar de todos os cuidados, ela produz uvas azedas. E o salmo torna a interpelação pessoal: «A vinha do Senhor é a casa de Israel». Somos nós. Nós somos a vinha do Senhor.
No Evangelho, Jesus fala de uma vinha arrendada. Quando o proprietário envia os seus servos para receber os frutos, os vinhateiros espancam uns e matam outros. Envia então o filho, esperando que o respeitem. Mas também o matam, para ficarem com a herança. Reconhecemos aqui a história de Deus com o seu povo: acompanhou Israel pelos patriarcas e pelos profetas, ensinou-o a discernir a sua vontade através da sabedoria e, na plenitude dos tempos, enviou o próprio Filho. Rejeitado e morto, mas ressuscitado, Jesus tornou-se a pedra angular. Dar fruto implica permanecer unido a Ele e deixar-se guiar por Ele.
Que frutos somos chamados a produzir? Primeiro, reconheçamos que a vinha não é nossa. A Igreja não é nossa propriedade, nem Deus está sob o nosso domínio. Tudo começa no dom. Aquilo que somos e fazemos é resposta ao amor de Deus, que nos oferece a possibilidade de viver em comunhão com Ele, através de Jesus Cristo.
Isaías fala de justiça. Jesus mostra-nos os sinais do Reino. Recordemos João Batista, na prisão, a mandar perguntar: «És Tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?». Jesus responde apontando para o que acontece: os cegos veem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa Nova. São estes os sinais de que o reinado de Deus está presente.
Produzir frutos é viver esta lógica: sabermo-nos amados por Deus e organizar a vida a partir desse amor. Pela graça, aprendemos a fazer o bem. Santo Agostinho falaria do Mestre interior que nos ensina. Esse amor torna-se justiça e misericórdia: cuidar dos outros, nas necessidades corporais e espirituais; restituir a dignidade; oferecer a quem se desorientou um lugar para recomeçar. Que, apesar dos seus erros e das suas falhas, encontre entre nós não a condenação, mas o reconhecimento da sua dignidade e a ajuda para uma vida plena e pacífica.
«A paz esteja convosco», diz Jesus ressuscitado. E Leão XIV insiste na paz e na necessidade de desarmar para a construir. Mas a paz não é apenas ausência de conflito. É harmonia com Deus, com os outros e connosco mesmos. Como cuidamos da nossa relação com Deus? Como tratamos os outros? Que fazemos para que as nossas relações sejam lugares de paz?
E temos coragem de anunciar o Reino? Ou pensamos que isso é tarefa do padre e, quando muito, das irmãs? Não somos espectadores passivos nem consumidores de serviços religiosos. Pelo batismo, todos recebemos a missão de anunciar, cada um segundo o seu carisma, a sua vocação e o seu estado de vida.
Anunciar não exige ostentação. Acontece no modo como agimos, trabalhamos e nos relacionamos: com os amigos, na família e até com os nossos bens. A nossa vida mostra se acreditamos que um mundo novo é possível ou se nos resignamos à lógica implacável do mundo. Conhecemos as dificuldades do mundo. Mas recebemos de Deus o dom da fé, que nos permite reconhecer que o mundo pode ser melhor, a vida mais plena e as relações mais humanas.
Mas acreditamos com as mãos. Acreditar implica pôr em prática aquilo em que acreditamos. Evangelizar não é apenas dizer doutrina ou repetir fórmulas da Escritura. É mostrar que um mundo novo é possível, procurando viver segundo a lógica do Reino. Quando mostramos que é possível viver de outra maneira, já estamos a anunciar. Quando as nossas comunidades assumem um modo diferente de ser e de estar, e cada batizado se compromete com a missão, a vinha do Senhor está a dar fruto.
Então, agradecemos. Não nos envaidecemos nem pensamos que somos os maiores. Sabemos que o bem que fazemos, o sentido e a paz que habitam o nosso coração são, antes de tudo, um dom. Um presente que o Senhor nos deu.
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